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Isso é lá deles...

Isso é lá deles...

O que está prestes a ler é um serviço público da mais elementar necessidade, como a água, o pão ou o toucinho. Este é o manual que lhe permitirá sobreviver no talho e lidar com os três tipos de clientes mais particulares:

 

  1. A "cliente informativa": aquela que não se limita a ir ao talho; ela vai ao talho e conta o que se passa na sua vida com um detalhe que não se vê nem na Enciclopédia Luso-Brasileira:

 

Talhante: Bom dia, D.ª Alice!

Cliente: Bom dia, Sr. Romão!

Talhante: Então como é que está?

Cliente: À rasca dos meus joanetes, mas isto já passa…

Talhante: E o que é que vai ser hoje?

Cliente: Olhe, Sr. Romão, queria ali [espeta o dedo gorduroso na vitrina] 800 g daquela vitela. Não quero nem muito magra, nem muito gorda. É para guisar com duas cervejas pretas, que o meu filho gosta muito da carne assim. Ele hoje chega às 13.30 para almoçar comigo. Geralmente sai às 14 horas, mas hoje o patrão deixou-os sair mais cedo da loja de ferragens! Ele trabalha há dois anos naquela loja na Rua José Carlos Malato, n.º 37, que está aberta das 9 às 18 e fecha aos fins de semana e feriados. O número de telefone da loja é o 284123456 e está inscrita no Registo Comercial de Beja com o n.º 45183 – MO. Sr. Romão, quero a carne cortadinha como se fosse para jardineira.

 

  1. A "cliente suspiradora": aquela que liberta, em média, um suspiro a cada 20 segundos; ela suspira tanto que não conseguimos perceber se está deprimida ou com falta de ar, e o seu discurso varia entre a depressão e o enfado:

 

Talhante: Olá, D.ª Etelvina! Então, como é que isso vai?

Cliente: [Suspiro] Ai, Sr. Sebastião... Por aqui vai-se andando, olhe já nem sei... [Suspiro]

Talhante: Ah, estou a ver, e então o que é que vai ser hoje?

Cliente: [Suspiro] Olhe, não sei... Nem sei o que quero... [Suspiro]

Talhante: Não sabe o que quer, D.ª Etelvina?

Cliente: [Suspiro] Olhe, nem sei o que quero desta vida, veja lá! [Discurso deprimido, salpicado com frustração, porque não gosta de ser apressada pelo talhante que tem mais do que fazer...]

Talhante: Não diga isso, veja lá, temos aqui coisas tão boas. Olhe aqui este belo pernil! Também temos uns lombinhos que chegaram hoje...

Cliente: [Suspiro] Pois, não sei... [Suspiro] Não sei, estou aqui indecisa... [Suspiro] Ai...

 

  1. A "cliente franzida": aquela que franze a cara a tudo o que o talhante lhe mostra e depois acaba por levar outra coisa que não era suporto levar:

 

Talhante: Bom dia, D.ª Efigénia! Como é que está hoje?

Cliente: Bem, obrigada! Olhe, preciso de qualquer coisa para o jantar, uma coisa de qualidade, que o patrão do meu marido vem comer connosco.

Talhante: Olhe aqui esta vitela magnífica para guisar, o que é que lhe parece?

Cliente: [Franze] Hum, não sei... E o que é que tem mais?

Talhante: E estas belas costeletas de borrego!?

Cliente: [Franze] Hum, não sei... E o que é que tem mais?

Talhante: Então e este "cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo"?

Cliente: [Franze] Hum, não sei... Acho que levo uns túbaros e acabou-se!

A minha mulher apanhou-me a comer chocolates de Natal da minha filha à socapa, como se fosse um gato vadio a vasculhar no lixo. Acho que teria sido menos constrangedor se me tivesse apanhado a ver pornografia.