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Isso é lá deles...

Isso é lá deles...

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A minha filha comprou, no Festival de Banda Desenhada de Beja, um exemplar da saga Capitão Cuecas. Desde o primeiro dia, cheio de paternalismo, gozei com o Capitão Cuecas, essa "pérola da literatura mundial". No passado fim-de-semana fomos a Lisboa e tivemos a oportunidade de ir ver o Capitão Cuecas ao cinema. Mais uma vez, exibi, com bastante parvoíce à mistura, alguma sobranceria: "Ui, vamos ver o Capitão Cuecas! Graaaaande filme, pá... Porra, mais um filme para miúdos". 

15:20, sala cinco do Almada Fórum. Estive sentado numa sala onde vi um dos melhores filmes de que me lembro, e que, no final, até teve direito a palmas. Graficamente é muito similar ao livro, impecavelmente bem escrito (com aquela precisão de relojoeiro), e com óptimas piadas que fizeram a delícia dos miúdos e dos pais. 

Mas do que mais gostei no filme foi da demonstração de que é essencial estimular a criatividade das crianças, e de que é bom preservar o direito a ser, nem que seja muito de vez em quando, um bocadinho pateta. E sim, o mundo precisa de um pouco de patetice.

É importante que preservemos e estimulemos o sentido de humor das nossas crianças. Para que crescer (e viver) não seja tão difícil como realmente é. 

 

 

Ser-se pai (pai e mãe – a polícia do politicamente correto pode deixar de afiar as facas) é difícil: nós amamos os nossos filhos, daríamos a vida por eles, mas só nos dão ralações. Sejamos honestos, existe, nos dias de hoje, uma pressão incrível sobre alguém que é pai (ou mãe, claro!). Estamos muito mais atentos aos problemas das nossas crianças, e isso é bom... Mas passámos do oito para o oitenta. Há 30 anos, criança que era criança já tinha brincado, pelo menos cinco vezes antes dos seis anos (dados do INE), com um pedaço de madeira húmida com oito pregos enferrujados – e, nessa altura, ter as vacinas do tétano em atraso era quase um requisito legal. Atualmente, se o nosso filho tem febre somos precipitados se vamos logo ao médico (“Tem de esperar três dias até a febre baixar! Já lhe deu Ben-U-Ron?”); mas se vamos ao médico no final do terceiro dia: “E agora é que traz a criança?! Isto não é normal! A criança pode ter uma gripe, ou uma pneumonia, ou a peste negra!”... E nisto imaginamos a Segurança Social a bater-nos à porta, a prender-nos com camisas de forças e a levar as crianças para um orfanato ao estilo de Oliver Twist, em que só se comem papas de aveia e os miúdos aprendem o ofício de limpa-chaminés. Nos dias de hoje, se um iogurte passa do prazo duas horas somos obrigados a chamar uma equipa de remoção de resíduos nucleares para jogar um iogurte fora. Há 30 anos, desde que um iogurte não cheirasse a queijo de Nisa, era perfeitamente comestível – bastava juntar 13 colheres de açúcar e comia-se como se não houvesse amanhã. Afinal, não se podia fazer a desfeita aos nossos pais, e muito menos ofender “os meninos de África que não têm nada para comer”. Há 30 anos, se fôssemos andar de bicicleta, caíssemos e ficássemos com uma rutura de ligamentos e/ou uma fratura exposta apenas ouvíamos: “Mete um bocado de mercúrio que isso passa!”. Hoje, se uma criança se corta com papel, tem de ficar de quarentena numa ala desinfetada da casa e temos de começar a rezar para que não se tenha cortado nenhuma artéria. E que dizer da tendência que as crianças têm de acordar (muito) mais cedo nos fins de semana e dias feriados (o comum é 6 e 05 horas)? Hoje, geralmente, os pais levantam-se, preparam qualquer coisa para as crias, levam-nas para o parque, onde estas podem brincar (com a máxima segurança!), enquanto os pais ficam a assistir, indecisos entre dormir no banco do parque e pensar seriamente se vale a pena continuar a viver devido à privação de sono. Mas há 30 anos havia pais que ficavam na cama até mais tarde, enquanto o seu filho se aventurava a cortar pão com a faca elétrica e achava que barrar a fatia com oito centímetros de espessura com margarina Vaqueiro era uma boa ideia. Agora mais a sério, os pais dos anos 80 foram os melhores pais que podiam ter sido. Nós sobrevivemos. Com escoriações e um joelho que prevê as mudanças do tempo, mas sobrevivemos. Por isso, um bocadinho menos de pressão sobre os pais de hoje só fazia bem. Aos pais e aos filhos.