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Isso é lá deles...

Isso é lá deles...

As redes sociais são uma criação incrível que teve o mérito de democratizar a opinião – todos temos direito a ela. Mas como tudo na vida, quando se cresce em quantidade, perde-se em qualidade (exceto a Nutella, essa nunca é demais!). Hoje vivemos obcecados pela opinião. Nós não nos limitamos a poder dar opinião, nós temos de dar a opinião, custe o que custar, doa a quem doer. Mais do que uma obsessão, vivemos numa orgia da opinião. Como em qualquer orgia, é tudo ao molho e fé em Deus, o que pode ser muito divertido, mas é também muito confuso. Não que eu saiba, prezado leitor. Foi um amigo que mo disse. Antigamente, quando se queria dar a opinião de forma pública, ainda se dava a cara. Hoje, usa-se o anonimato, e é possível ser-se um sniper da palavra, fazendo com que nunca se saiba de onde vieram as maiores farpas. Gostamos de celebrar a democracia e a opinião livre, mas, nas redes sociais, como notou o Hugo Lança numa crónica publicada neste mesmo jornal no mês passado, qualquer opinião só é perfeitamente válida desde que seja coincidente com a nossa. Caso contrário, a opinião, que se quer tolerante e construtiva, torna-se uma bomba atómica de azedume e truculência. Alguém que se atreva a dizer algo com que não concordemos será alvo de uma espera à porta do Facebook! Quando Maria Vieira, por exemplo, diz, entre variadíssimas pérolas, que o aquecimento global não existe, eu não quero que ela seja derrotada pelo poder da ofensa, mas sim pelo poder da razão e da palavra. Não quero que lhe chamem “meia-leca”, quando já é suficientemente mau que lhe chamem “Parrachita”. Devemos mostrar-lhe os estudos científicos que comprovam a sua existência. Aliás, bastaria convidar a Maria Vieira para visitar a Amareleja em agosto para que ela visse o que é o aquecimento global. Somos uns “heróis”, uns justiceiros 2.0, mas atrás do teclado. São muitas horas à frente do PC, vestidos com os calções que estão quase a ser transformados em panos do pó, intercalando horas nas redes sociais com pornografia japonesa – sim, prezado leitor, não finja que não vê pornografia japonesa... Gentil Martins disse coisas pouco simpáticas sobre homossexuais. Foi a revolta nas redes sociais. Com os problemas que o País atravessa, será realmente importante aquilo que um médico de 87 anos diz? De que é que estavam à espera? Ele é de um tempo em que uma mulher tinha de pedir autorização ao marido para sair do País. É de um tempo em que a pomada de alcatrão era uma boa ideia e em que o óleo de fígado de bacalhau era uma coisa fantástica. Mas Gentil Martins foi vergastado, digitalmente, sem piedade. Pergunta: valeu a pena? Ainda se lembra do que ele disse? Concentremo-nos no que é realmente importante e produtivo. Evite clicar em “notícias” de sites credíveis como o istoestábonito.com ou o devescávir.net. Consuma redes sociais em doses regradas, de preferência antes das refeições, e evite a exposição excessiva ao Facebook. Agradecer-me-á mais tarde.

Hoje, não sei porquê, lembrei-me disto. 1994. A minha mãe e irmã estavam a pensar em que praia (e eu detestava praia) iríamos passar férias. O Ricardinho, com 13 anos, gordinho na mudança da voz, disse a imortal frase: ESTE ANO PODÍAMOS IR ÀS TERMAS! Agradeço a Deus pelo facto de a minha mãe não me ter dado com uma frigideira. Na rótula. Bem merecia.