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Isso é lá deles...

Isso é lá deles...

Exmo. sr. ministro do Planeamento e Infraestruturas de Lisboa, Montijo e zonas limítrofes:

 

Espero que esteja tudo bem consigo, com a sua ministra e com os ministrinhos lá em casa. Nós por cá vamos andando como é possível. Ou melhor, não vamos a lado nenhum. Não é que não queiramos ir a algum lado, até queremos, mas não nos deixam. Acessos do terceiro mundo, uma automotora que não tem a IPO em dia e passa mais tempo na oficina do que a circular, um aeroporto que só serve para ser alvo de chacota da elite (pseudo-)urbana e (pseudo-) intelectual de Lisboa – é assim o panorama dos transportes no distrito de Beja. O seu antecessor, Mário Lino, era um visionário: da margem sul para baixo era só deserto. Pois até com camelos ficaríamos melhor servidos: só é pena que não tenham ar condicionado. Antigamente os bejenses viajavam no intercidades para Lisboa; agora deslocam-se numa automotora até Casa Branca (não aquela casa na América por onde o Trump vagueia nu – e sim, vou deixá-lo com esta imagem horrível na cabeça). Há mais bejenses a utilizar a linha do que eborenses, e com mais frequência, mas Évora tem todas as regalias. Há doentes oncológicos que vão de Beja para Lisboa fazer tratamentos em carruagens degradadas e sem ar condicionado no verão – a cabeça rapada não é o penteado da moda, é quimioterapia, sr. ministro. V. ex.ª insiste em construir um aeroporto no Montijo, terra de onde é natural. O que é que o Montijo tem a mais do que Beja? Por cá nasceram vultos da literatura mundial, como Al-Mutamid e Mariana Alcoforado! Somos um dos berços da doçaria conventual – se não sabe o que é, imagine um sundae de caramelo mas muito melhor! O que é que o Montijo deu ao mundo? O pé esquerdo do Paulo Futre e o nome ao cineteatro local de Joaquim de Almeida (um ator que se destacou em Hollywood a fazer de traficante mexicano, colombiano ou brasileiro; uma espécie de Benicio del Toro de marca branca), ele que nem sequer é do Montijo! Desculpe o tom ligeiro, sr. ministro, e desculpem-me os montijenses. Não quero ofender ninguém. O Montijo merece respeito e desenvolvimento. E Beja não? A sua atuação como ministro só vem confirmar o que já se suspeitava há muito – o discurso da classe política sobre a necessidade de desenvolver o interior é como o talento do João Pedro Pais: pode estar cheio de boas intenções, mas não vai passar muito daquilo. O único pecado de Beja é não ser suficientemente cool para a Madonna querer comprar casa por estas bandas (o que é uma parvoíce, com tantas casas boas na Colina do Carmo). É uma pena que Beja não tenha lóbi ou peso político. E também temos problemas criados por nós, é verdade, mas havia necessidade de nos dificultar tanto a vida? Lembra-se do Alqueva ou do porto de Sines? Eram elefantes brancos que não iriam a lado nenhum. Mas hoje ninguém coloca esses investimentos em causa. Por isso, peço-lhe: pense a longo prazo. Pense no País como um todo.

Saudinha.

Crónica publicada no Diário do Alentejo de 30 de Junho de 2017