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Isso é lá deles...

Isso é lá deles...

Está pronto desde o início do ano, mas só agora viu a luz do dia - não estranhem o desejo de bom ano logo no início da gravação!

O podcast do Isso é lá deles... está de volta, e desta vez temos uma entrevista com Paulo Barriga, diretor do Diário do Alentejo. O Paulo (sim, sou suspeito) tem feito um trabalho extraordinário no Diário do Alentejo. É um jornalista com experiência, com muitas histórias para partilhar, o que fez nesta conversa que durou mais de uma hora. Não me quero alongar com muitos comentários - esta edição fala por si. 

 

Muito obrigado, Paulo, pela tua disponibilidade e paciência. E ao José Miguel Sequeira, pela edição e música. 

"Ela é linda sem makeup up
Ela é perfeita e quando se deita não precisa de makeup
Sem rímel, sem, sem batom, ela foi abençoada, yeah
Com o olhar, com o dom de parar o trânsito na estrada
E ela não precisa de se pintar para provar"

Cesário Verde

#DiaMundialdaPoesia

No outro dia fui às urgências. Cheguei à sala da triagem, onde fui atendido por uma enfermeira com o ar de quem tinha morrido por dentro e só estava à espera da autópsia, e ela, num último sopro de vida, perguntou-me: “Então, está aqui porquê?” Reparem que a senhora não perguntou o que é que eu sentia, nem como é que conseguia manter-me tão sensual, apesar de estar doente. “Estou aqui porquê?” Uau! Já não bastava a escola e ainda tenho de chegar ao hospital e levar com estas perguntas difíceis. Senti-me no “Quem quer ser milionário”, encalhado na pergunta para ganhar 25 mil euros, mas já tinha ligado para casa e a ajuda do público na sala de espera não valia a pena, porque malta com febre ou com um rabinho de trombose não ajuda muito… Assim, estive a pensar em várias respostas possíveis. Estou no hospital, nas urgências, porque… 

 

1. … Hum, vim ver a paisagem! Se há coisa de que gosto é de ver estas planícies de idosos a soro em macas, intercalados com montes de pitas em coma alcoólico. Por alturas da Ovibeja o cenário é deslumbrante e até mesmo bucólico! Não há nada como ver um belo pôr do sol, com a luz a bater na moleirinha dos idosos… E de inverno aquela neblina a lixar os cabelos das pitas… Lindo! Espere só um pouco, senhora enfermeira, que vou tirar uma foto dos idosos a soro para o Instagram! Pronto, já está! #IdososASoroAcamados #PitasEmComaAlcool ico #Sunset#DeusnoComando #PulseiraAmarela #TriagemdeManchester4ever 

 

2. … Ah, vim ver televisão na sala de espera! O que me apetecia mesmo era estar numa sala cheia de gente com uma pulseira amarela a ver a TVI. Ainda tive esperança de poder ver um documentário na RTP 2, mas o raio da televisão está sempre na TVI! Malvadas das auxiliares que ficaram com o comando… Pelo menos estou bem acompanhado, e a sala tem a temperatura ambiente do interior de uma salamandra, enquanto lá fora está um frio do catano. Bem, vou mas é voltar para lá e tentar adivinhar os nomes das pessoas que são ditos nos altifalantes. Tenho esperança de que o feedback das colunas me deixe surdo: assim, a TVI leva-se muito melhor! Pronto, agora é rezar para que apanhe um médico espanhol que fale como o Paulo Bento ou o palhaço Croquete. E se tudo correr bem, devo estar despachado antes da Páscoa… de 2022.

 

3. … Ora bem, sabe o que é que foi? Estava com uma daquelas vontadinhas de comer uma fatia de salame de chocolate com três semanas, e vim ao hospital para ver se havia alguma naquela máquina automática que vende merdas que fazem mal a quem aqui está – um diabético comer Twix não deve ser grande ideia, mas também não sou nenhum médico, não é verdade?! Mas olhe que só como a fatia de salame se tiver passado pelas mãos de alguém contaminado com ébola ou gripe A. Sabe como é que é, quando engravidamos de Satanás, ficamos com estes apetites estranhos! (Descobri que é especialmente eficaz se for um homem a dizer isto. Não fui eu quem o disse, prezado leitor. Foi um amigo que me contou. A sério!

 

Texto publicado na edição de 9 de março do Diário do Alentejo. 

O que está prestes a ler é um serviço público da mais elementar necessidade, como a água, o pão ou o toucinho. Este é o manual que lhe permitirá sobreviver no talho e lidar com os três tipos de clientes mais particulares:

 

  1. A "cliente informativa": aquela que não se limita a ir ao talho; ela vai ao talho e conta o que se passa na sua vida com um detalhe que não se vê nem na Enciclopédia Luso-Brasileira:

 

Talhante: Bom dia, D.ª Alice!

Cliente: Bom dia, Sr. Romão!

Talhante: Então como é que está?

Cliente: À rasca dos meus joanetes, mas isto já passa…

Talhante: E o que é que vai ser hoje?

Cliente: Olhe, Sr. Romão, queria ali [espeta o dedo gorduroso na vitrina] 800 g daquela vitela. Não quero nem muito magra, nem muito gorda. É para guisar com duas cervejas pretas, que o meu filho gosta muito da carne assim. Ele hoje chega às 13.30 para almoçar comigo. Geralmente sai às 14 horas, mas hoje o patrão deixou-os sair mais cedo da loja de ferragens! Ele trabalha há dois anos naquela loja na Rua José Carlos Malato, n.º 37, que está aberta das 9 às 18 e fecha aos fins de semana e feriados. O número de telefone da loja é o 284123456 e está inscrita no Registo Comercial de Beja com o n.º 45183 – MO. Sr. Romão, quero a carne cortadinha como se fosse para jardineira.

 

  1. A "cliente suspiradora": aquela que liberta, em média, um suspiro a cada 20 segundos; ela suspira tanto que não conseguimos perceber se está deprimida ou com falta de ar, e o seu discurso varia entre a depressão e o enfado:

 

Talhante: Olá, D.ª Etelvina! Então, como é que isso vai?

Cliente: [Suspiro] Ai, Sr. Sebastião... Por aqui vai-se andando, olhe já nem sei... [Suspiro]

Talhante: Ah, estou a ver, e então o que é que vai ser hoje?

Cliente: [Suspiro] Olhe, não sei... Nem sei o que quero... [Suspiro]

Talhante: Não sabe o que quer, D.ª Etelvina?

Cliente: [Suspiro] Olhe, nem sei o que quero desta vida, veja lá! [Discurso deprimido, salpicado com frustração, porque não gosta de ser apressada pelo talhante que tem mais do que fazer...]

Talhante: Não diga isso, veja lá, temos aqui coisas tão boas. Olhe aqui este belo pernil! Também temos uns lombinhos que chegaram hoje...

Cliente: [Suspiro] Pois, não sei... [Suspiro] Não sei, estou aqui indecisa... [Suspiro] Ai...

 

  1. A "cliente franzida": aquela que franze a cara a tudo o que o talhante lhe mostra e depois acaba por levar outra coisa que não era suporto levar:

 

Talhante: Bom dia, D.ª Efigénia! Como é que está hoje?

Cliente: Bem, obrigada! Olhe, preciso de qualquer coisa para o jantar, uma coisa de qualidade, que o patrão do meu marido vem comer connosco.

Talhante: Olhe aqui esta vitela magnífica para guisar, o que é que lhe parece?

Cliente: [Franze] Hum, não sei... E o que é que tem mais?

Talhante: E estas belas costeletas de borrego!?

Cliente: [Franze] Hum, não sei... E o que é que tem mais?

Talhante: Então e este "cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo"?

Cliente: [Franze] Hum, não sei... Acho que levo uns túbaros e acabou-se!

A minha mulher apanhou-me a comer chocolates de Natal da minha filha à socapa, como se fosse um gato vadio a vasculhar no lixo. Acho que teria sido menos constrangedor se me tivesse apanhado a ver pornografia.