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Isso é lá deles...

Isso é lá deles...

Há portugueses que não gostam muito de Portugal, mas gostam muito dos não portugueses que gostam muito de Portugal. Somos praticantes de uma espécie de outsourcing do patriotismo tuga – somos tão sovinas e preguiçosos que preferimos que os outros, “os estrangeiros lá de fora”, façam esse trabalho por nós. Afinal, isto de gostar do nosso país dá trabalho e não é para andar a fazer por aí, à balda. Mas o tuga quer sempre mais: não basta que a Madonna viva em Portugal, ou que a Monica Bellucci tenha comprado uma casa em Lisboa (obrigado, Deus!). Se há uma notícia sobre a realidade internacional, haverá sempre alguém que encontre um detalhe tuga: "A Síria foi bombardeada pela França, Reino Unido e Estados Unidos. Sabia que a aerodinâmica dos mísseis foi melhorada no Instituto Politécnico de São Marcos da Ataboeira?"; "Donald Trump traiu a sua esposa com uma atriz porno. Sabia que essa atriz uma vez comprou popias caiadas em Portel?"

Lembra-se da estação espacial chinesa que ia cair algures no planeta? Saíram logo notícias de que havia uma forte possibilidade de 3% (três por cento!) de cair onde? Em Portugal, pois claro! Era mais provável que o/a leitor/a ganhasse o Euromilhões no mesmo dia em que ia almoçar com a Sara Sampaio ou o Paulo Pires. Parece que a estação caiu no oceano Pacífico, ao largo do Chile. Não sei como é que não noticiaram que, ao entrar na atmosfera, a estação espacial se tinha desintegrado em latinhas de atum Bom Petisco em azeite virgem extra e em galos de Barcelos – haveria lá coisa mais tuga!?

Há pouco tempo, Kate Middleton, a Duquesa de Cambridge, deu à luz mais um bebé. Claro que havia jornalistas portugueses a cobrir, em direto, o acontecimento. Mas, infelizmente, não tiveram sorte: já não bastava a Duquesa de Cambridge estar no único hospital do hemisfério norte que não tinha uma única enfermeira portuguesa, mas os membros da imprensa também não conseguiram descobrir que Kate tinha levado pontos com uma agulha produzida numa fábrica de Alvito, e que a primeira refeição da criança tinha sido um biberão com sabor a pastel de nata do Luiz da Rocha. Nem quero imaginar o frenesim de alguns destes jornalistas quando descobrirem que em Portugal também há mulheres que dão à luz.

Também recentemente, um lunático atropelou um monte de gente em Toronto, no Canadá. Os média portugueses não descansaram enquanto não descobriram que uma portuguesa (claro!) tinha sido uma das vítimas. Dias depois, no Observador, é notícia: “Lusodescendente ferida no atropelamento em Toronto sem nacionalidade portuguesa” – uau, que alívio! Afinal não é tão grave, ela nem é portuguesa!

Estimados jornalistas do meu país, esta obsessão com tudo o que é português no estrangeiro tem de acabar. Senão, qualquer dia, descobrem portugueses que fazem coisas boas cá.